Geografia: O Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa



Introdução


   “O Grande Sertão: Veredas, é uma das obras mais importante da literatura brasileira, escrita por João Guimarães Rosa e publicada em 1956.
  No enredo, o personagem-narrador- Riobaldo - apresenta um relato sobre sua vida, desde seus medos, amores, traições, dentre outros.
  De tal maneira, Riobaldo faz uma autorreflexão sobre sua vida ao descrever além dos acontecimentos, a paisagem do sertão, a um doutor que recentemente chegou na fazenda em que vive, a quem ele se refere como “Senhor” ou “Moço”.
  Com a morte de sua mãe, Riobaldo passou a viver com seu padrinho, Selorico Mendes, na fazenda São Gregório; mais tarde ele descobrirá que Selorico é seu verdadeiro pai.
  Por conseguinte, na fazenda conhece o bando de jagunços de Joca Ramiro, o chefe dos jagunços. Mais adiante, conhece Reinaldo, jagunço do bando de Joca Ramiro, que depois revela ser Diadorim, seu grande amor.
  Por meio de uma narrativa não é linear, ou seja, labiríntica e espontânea, é narrado as divagações de Riobaldo, que descrevem as personagens que compõem a obra e ainda, as lutas entre os bandos de jagunços, o conflito com o bando de Zé bebelo e a morte de chefe dos jagunços, Joca Ramiro.

  
Desenvolvimento

Espaço
  “[...]. Uns querem que não seja, que situada sertão é por os campos-gerais a fora dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. [...] O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho[...]”. Páginas 3 e 4.


  Neste trecho, Guimarães Rosa retrata, já no início de sua obra, o cenário que será apresentado durante o enredo, que são os gerais. Esta paisagem está localizada nos domínios morfoclimáticos de cerrado, caatinga e áreas de transição entre cerrado, caatinga e mares de morros.



Ao longo da história o narrador-personagem descreve aspectos desse cenário, como no seguinte trecho onde ele destaca a hidrografia dos gerais de Goiás.  “Gente vê nação desses, para lá fundo dos gerais Goiás, adonde tem vagarosos grandes rios, de água sempre tão clara aprazível, correndo em deita de cristal roseado[...]”. Página 23.  

No Domínio do Cerrado, que é o apresentado neste trecho, as Veredas m em locais de brejo e fundos de vale nas áreas inundadas. Nesses lugares os formosos buritis indicam a presença de água, já a carnaúba e o babaçu são comuns em áreas menos úmidas.  É possível comprovar tal afirmação ao observar o seguinte fragmento:  “Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, [...]. Daí se desceu mais, e, de repente, chegamos numa baixada toda avistada, felizinha de aprazível, com uma lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: buriti - verde que afina e esveste, belimbeleza.” Página 56.  

Além das Veredas, também se observa paisagens do Cerradão: “A parte de mais árvores, dos cerrados, cresce no se caminhar para as cabeceiras.” Página 56; e também dos campos do cerrado: “Em o que afundamos num cerrado de mangabal, indo sem volvência, até perto de hora do almoço. Mas o terreno aumentava de soltado. E as árvores iam se abaixando menorzinhas, arregaçavam saíam no chão. [...]. Ali onde o campo largueia.’’ Página 59.   

Esses fragmentos fazem referência à longa jornada dos jagunços de Medeiro Vaz até o Liso do Suçuarão para guerrear nos “fundões da Bahia”. Depois de sair da paisagem do chapadão, dos campos do cerrado, das Veredas, eles adentram no Sertão e sentem os efeitos do clima semiárido.” Acabava o grameal, naquelas paisagens pardas. [...] o mundo se envelhecendo, no descampaste. [...] era uma terra diferente, louca e lagoa de areia. Onde é que o sobejo dela, confinante? O sol vertia no chão, com sal, enfaisçava. De longe vez, capins mortos; e uns tufos de seca planta-feito cabeleira sem cabeça. “Página 59 e 60.” Mas mor o infernal a gente também media. Digo. A igual, igualmente. As chuvas já estavam esquecidas, e o miolo mal do sertão residia ali, era um sol em vazios” Página 62   O Domínio morfoclimático de mares de morros pode ser percebido implicitamente na seguinte passagem:“Mas, depois num sítio perto da Serra Nova, foi uma outra, a moreninha miúda, e essa se sujeitou fria estendida, para mim ficou de pedras e terras.” Página 238  O Parque Estadual de Serra Nova é caracterizado por uma vegetação de campos rupestres, possuindo algumas árvores nativas como Jataipeba, Aroeira e Sucupira. Possui alguns pontos de mata fechada e a topografia bastante irregular, composta da Serra Geral e da Serra do Espinhaço, com regiões de grotas, morros e nascentes. O parque abriga diversas nascentes, entre elas a do Ribeirão São Gonçalo e dos rios Ventania, Suçuarana, Bomba, Ladim e do Córrego da Velha.   Outros locais que também são citados na obra de Guimarães Rosa são Vargem Bonita e Morpará.“Antônio Dó eu conhecia, certa vez, na Vargem Bonita, tinha uma fenha lá [...]” Página 231   

Vargem Bonita: Primeira cidade em que o Rio São Francisco passa pela região urbana. Vargem Bonita está localizada próxima ao Parque da Serra da Canastra, a cidade dá acesso à principal cachoeira do parque, a Casca d’Anta. Conhecida por ser a primeira queda do Rio São Francisco, a cachoeira chega a ter queda livre aproximadamente de 180 metros, a sexta maior do Brasil.   “O Garanço era sanfranciscano, dum lugar chamado Morporá” Página 241

Morporá: Foi descoberta em 1812 por um vaqueiro da fazenda Picada que andava a procura de gado. Encontrou vários índios que pescavam às margens do Rio São Francisco no local onde serviu, muitos anos depois, para a ancoragem de navios chamados vapor, ficando este local conhecido por todos como Porto Vapor.

            

Conclusão

    Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, é um ótimo exemplo da relação entre a Literatura e a Geografia. Através de um conhecimento empírico a respeito dos Domínios morfoclimáticos é possível identificar, durante a leitura da obra, as passagens que descrevem o cenário e relacioná-los com tais Domínios.
     O autor utiliza uma linguagem de fácil entendimento para descrever a paisagem, por isso é possível buscar novos conceitos para caracterizar os Domínios de cerrado e caatinga e as zonas de transição entre cerrado, caatinga e mares de morros. Além disso, a leitura e compreensão tornam-se mais assimilativas.






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